segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Consumismo

Final de ano. Férias agendadas. Natal chegando. Um reboliço no shopping!
Será que alguma vez na historia da humanidade se consumiu tanto?
Sei não. Os manobristas é que estão se dando bem.
Fico imaginando estes apartamentos apertados de hoje em dia com armários mínimos guardando tanta coisa
Fui ao shopping com Marina e Zé e a minha filha estava em extase. Ela diz " Que delícia, mãe. O que? pergunto. Ela responde: "esta porrada de sacola na mão!
Realmente é legal trazer um vestido novo para casa. A pergunta é: Legal até quando? Parece que  tres dias depois já não faz tanta diferença e queremos comprar algo mais.
Estive pensando.... Em analogia com a expressão em espanhol consumismo significa consigo mesmo. Con su mismo.
Assim  parece que o que obtemos nas compras é um momento de profunda relação  conosco. Será? Ora, se for, tá explicado. Afinal andamos muito distantes de nós mesmos estes últimos tempos.
All right! Não preciso querer pouco. Podemos querer tudo. Mas que tal ficarmos agradecidos e felizes pelo que conseguimos?
Pode se comprar a bolsa e ter prazer com isso, mas há um espaço de contentamento interno que precisa permaneccer com ou sem a bolsa. Né não???

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Mia Couto

"O amor acontece para a gente desacontecer."
"Não é o coração que me ancora a esta vida. É a lembrança. Minha mulher ainda se lembra de mim"
"É o esquecimento e não a morte que nos faz ficar fora da vida".
"Tenho medo de ao fazer amor contigo não regressar de ti".
"O hospital é um lugar doente".
"Não sou preto. Sou extremamente mulato".
"Viver é um verbo sem passado".
"Não é que eu seja infeliz. Eu não sou é feliz".
Frases do último romance  do Moçambicano Mia Couto entitulado Venenos de Deus, remédios do diabo

domingo, 12 de dezembro de 2010

Uma cigana do Maranhão

"Sou do riso e do mar" me disse ela certa vez. Tenho sangue de cigana. Meu nome é Risomar.
Risomar Waquim, a mestra. Sim porque sempre tem um conselho para nos dar sobre o viver.
Mãe de quatro filhos homens, um deles meu amigo, e mais uns agregados pode ser considerada uma figura lendária no Maranhão.
Amiga dos Sarneys, amante da pintura, cozinheira, rezadeira,  caridosa e , antes de tudo, uma mulher forte.
Dia desses reencontro com ela na festa de aniversário de seu filho Jorge. O sexagenário mais sexy de Brasília. Sua mulher que não me ouça! Reencontrá-la é sempre motivo para rir e brindar a vida. Sabe aquele sentimento de se sentir inteira? É o que acontece nestes encontros. Como se a presença dela nos  fortalecesse um pouco.
Conversávamos sobre as pingas que aprecia, sobre filhos, netos e bisnetos animadamente. Porque não dize-lo rindo até chorar  e manchar a maquiagem.
Em certo momento da festa ela nos conta da vez que bateu num moço em sua casa. Se lamentava de não ter batido mais. O motivo? Ter o mancebo abusado da confiança de sua agregada.
Tem porte de arma. Como confirmou seu filho Elias  ela tem um 38 e um 22. Sem contar com o arpão de arraia que leva consigo camuflada na roupa para qualquer necessidade atróz.
Contava ela que anos atrás pegou um taxi no Maranhão e percebeu que o motorista estava dando voltas a fim de fazer com que a corrida rendesse mais.
Não teve dúvida desembainhou a dita arma e passou levemente pelo pescoço do motorista dizendo..." agora deixa de enrolação e vai direto para o endereço, doçura". Segundo ela o pobre homem de repente começou a suar frio, mas rapidamente chegou no endereço solicitado anteriormente.
Conta das vezes que cozinhou para ministros e gente famosa. Conta das peixadas que fez na vida, dos pobres que ajudou e da fé inabalável que tem na vida, da necessidade de terrmos juizo.Conta dos cinco ultimos anos que conviveu com o Alzheimer do marido e de como emagreceu vinte quilos nesta luta. Relembra a mudinha de louro que minha mãe fez para ela certa vez no sítio e se emociona ao dizer que me conhece há mais de trinta anos.
Ia me esquecendo. Quando na festa cheguei deparei logo com ela e sentei em sua mesa  beijando-a e dizendo-lhe que estava me sentindo uma dama naquele lugar tão requintado.
Automaticamente sinto que ela me puxa os dois braços e me olha como se quisesse me aterrizar um pouco e diz ... "Voce é uma dama!" e pede que eu nunca me esqueça disso. Na hora até concordo com ela, sei não. Mas fica uma sensação de ser  apenas um projeto de  dama, uma vez que dama, dama mesmo? É ela!
Dona Risomar Waquim. Minha velha amiga que tanto é riso como é mar.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Two women "reading"!?

Encanta-me esta foto de Henri Bresson, assim como todas as outras.
Suas fotos dispensam texto. São fotos que parecem pulsar como qualquer ser humano pulsa.
 Pulsa no medo, na apreensão, na solidão, no vazio, na pausa, na dúvida, na inveja, na admiração, na paz de espírito, na solitude, na imaginação, no sonho, no devaneio, na sede, no aquietar-se, na reflexão, na curiosidade.
Mais do que isto elas nos revelam a natureza humana em detalhes.
 Como se suas fotos radiografassem o que está além. O que tá dentro.
Nossas dores e nossas delícias.
 Nossos mais discordantes aspectos .
Nossa tão grandiosa mentira.
Nosso tão pequenino engano.
Nossa insistencia em ser feliz.
Nossa covardia ao desistirmos de nós.
Nossa coragem para retomar.
Nossa confiança desconfiada.
Nossa ausencia presente.
Nosso grande gap.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O homem integrado à natureza

Quantas vezes  já não ouvimos que precisamos nos religar à natureza?
Parece tão difícil. Melhor, dificílimo!!!
Para tanto precisamos de workshops xamanicos, meditação e outras parafernálias que nos ajudem a aquietar a poluição sonora que temos dentro de nós, pobres moradores dos grandes centros, mortais sobreviventes do caos diário.
No entanto......
Fiquei perplexa semana passada ao perceber que meu caseiro no sítio estava aparando a cerca e aproveitou para limpar as pedras cobertas de limo. Até aí, tudo bem.
Estávamos na piscina e nem percebemos que a bomba que enche a caixa d'agua da casa dele estava ligada.
Passou um tempo e vimos sua companheira sair correndo de casa para avisar-lhe da necessidade de desligar a dita bomba.
Gente, ela não chegou a dar cinco passos e ele já vinha correndo.
Detalhe :Jordeny estava trabalhando no portão e a casa dele fica há mais ou menos cem metros de distancia!!!
Sim senhor,cem metros!
Ficamos perplexos de ver que ele tinha ouvido a água correndo e nós não. A diferença? Seus ouvidos estão ligados a seu ser e seu ser está no aqui e no agora. Eckhart Tolle em seu livro O poder do agora diz que para contemplarmos  o espaço infinito em uma noite clara, para escutarmos o som de um riacho numa montanha na floresta ou o som de um melro ao cair da tarde a mente precisa estar serena; do contrário voce olhará mas nao verá, ouvirá mas não escutará. E completa: Estar totalmente presente é fundamental.
Tal como um maestro que rege uma orquestra, meu caseiro consegue reger e reger-se junto à natureza.
Sujeito e objeto de  uma harmonização vivenciada pelos índios com tamanha naturalidade que faz com que nós, cidadãos civilizados, pensemos duas vezes antes de trocarmos o campo pelo grande centro estando de férias ou aposentados.
Como diz o meu livreiro de Itaipava .... "Há que se fazer o caminho inverso"!
                                                                                       
Jordely com um galho de caquis

Lya Luftiando-me a little



Mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher.
Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades.
E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi.
Foi um momento inesquecível...
A platéia inteira fez um 'oooohh' de descrédito.
Aí fiquei pensando: 'pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?'
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado 'juventude eterna'. Estão todos em busca da reversão do tempo
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada.
A fonte da juventude chama-se "mudança".
De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora.
A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas.
Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
Mudança, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho.
Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos.
Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol.
Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional.
Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza.
Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente escolhe viver.
Olhe-se no espellho!!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Somos mais que pessoas. Somos o universo.

 
          Todos nós já fomos, alguma vez na vida, chamados de a filha da dona Fulana, ou o neto da Ciclana, 
Ora, esse chamado tem o poder de nos situar num tempo, num espaço ou  numa tribo; no caso a tribo familiar. Sentimo-nos inseridos. Fazemos parte. Melhor, pertencemos..
      A constelação Familiar, enquanto trabalho terapeutico, defende que precisamos reverenciar nossa ancestralidade. Sempre e embora algumas vezes tarde. Tipo entendendo que nossos ancestrais abriram trincheiras, cruzaram mares, batalharam para que hoje estejamos aqui, etc.
Estando de volta ao lar, aquele que foi o lar de meus pais e minha avó. No sítio Do arco da velha, isso parece que fica à flor da pele. Todos conhecem todos de longa data. Há trinta anos temos como vizinhos um casal que testemunhou as alegrias e adversidades de meus pais, assim como meus pais testemunharam algumas dores e muitas delícias de suas vidas. Quem conheceu a Charlote que o diga. Uma senhorinha francesa mãe de Célia e sogra de Paulo.
      Desta vez não alugamos carro. Queríamos testar nossa disposição para subir e descer de onibus. O argumento era.... Não fazemos isto no exterior?  
Conseguimos de certa forma; mas ninguém é de ferro, teve horas que apelamos para o taxi. Conversa vai conversa vem Seu Carlinhos, motorista de taxi há quarenta anos em Itaipava, descobre que sou filha do Sr Domingos, "aquele velhinho bom de papo". Sr Carlinhos se desdobra em nos atender, dá desconto e, de quebra, ainda nos pede encarecidamente que levemos um forte abraço para meu pai. Concordo e prometo que em Janeiro, quando aqui de novo, promoveremos um encontro dos dois. Um cafezinho, quiçá um bolo.
      Estando por aqui Célia nos convida para almoçar num domingo qualquer e então ouço do Dr. Paulo elogios e elogios sobre minha mãe. Seu gesto lava minha alma. No último domingo , já no cafezinho que se extende para que todos consigam contar e compartilhar as últimas, me surpreendo com Dr Paulo pegando minha mão em reverencia e dizendo..... Mas, Angela eu quero te dizer que voce está cada dia mais parecida com a |Ilse e isto me dá um enorme prazer de estar em sua companhia porque sua mãe foi muito querida para mim, etc etc. Fala do time de futebol dela, do dele, dos biscoito que ela lhe fazia e por aí vai. Passos firmes, andar concentrado, olhos miudos segue com a fala mansa de baiano que é  nos levando até o portão, onde mais uma vez se despede segurando meu rosto, como se no gesto quisesse ter  por instantes minha mãe perto de si. Venho para casa e comento com o Negão como é bom ter tido meus antepassados abrindo meus caminhos. É como se estes almoços fossem por eu ser filha da Ilse.Uma homenagem.
       No outro dia saio para comprar o jornal e ouço a Neia dizer ao sr João da padaria... A Angela da Dona Ilse tá de volta... Penso: não preciso nem ter o dinheiro para pegar o jornal. To em casa.Fico pensando....Somos mais que nós mesmos. Muito mais....Tantíssimos que nem imaginamos. Aqui a separatividade tão pontuada por Deepak Chopra quase inexiste.A gente aqui se expande e deixa de ser uma pessoa  a parte para ser um micro universo.
       Janeiro tá chegando e com ele a família toda.... Logo vou estar ouvindo.... É a Bia... filha da Angela, A Marina neta da Ilse ou, melhor, A Amanda e a Jully, netas da Angela....
 Passado abrindo caminho para o futuro. Assim segue a marcha, assim caminha a  humanidade no compasso dos nossos  coraçoes..
Fica a pergunta: O que um motorista de taxi tem em comum com um engenheiro de portos?
Resposta: A capacidade de me enraizar despertando em mim minhas velhas e minhas crianças, me contextualizando num campo familiar...
     Volto para Brasilia mais uma vez com um sentimento de pertinencia que me faz lembrar a frase de um personagem de Mia Couto ..."Não se preocupe com o meu coração, doutor. O que me ancora é a lembrança. Minha mulher ainda lembra de mim."