terça-feira, 10 de agosto de 2010

Clarissando


Saudades (Clarice Lispector)

"Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
Que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades

Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.
E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...
Sinto saudades dos que se foram"

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Clarissando, again... (Homenagem a Emília Gaumitz)

        
       Há uma época em nossa vida, geralmente na metade da vida, em que precisamos tomar uma decisão- possivelmente a decisão psíquica mais importante para nossa vida futura- a respeito de nos tornarmos amargas ou não. As mulheres costumam chegar a este estágio num ponto em que estão "cheias até a raiz dos cabelos". Seus sonhos de quando tinham vinte anos podem estar jogados de qualquer jeito. Pode haver corações partidos, casamentos desfeitos, promessas esquecidas.
        Qualquer um que viva muito acumula lixo. Não há como evitá-lo. No entanto, se a mulher quiser voltar à sua natureza instintiva em vez de mergulhar numa atitude amarga ela renascerá revitalizada. Nascem ninhadas de lobos todos os anos. Geralmente são uns bichinhos de pelagem escura, de olhos ainda fechados, cobertos de terra e palha, mas de imediato estão alerta, brincalhões e amorosos, querendo a proximidade e o carinho. A mulher que volta à mulher selvagem também voltará à vida. Ela vai querer brincar. Ela vai ainda  querer  crescer.Mas antes, é preciso que haja uma purificação.
      Se você alguma vez viajou por estradas do México ou até mesmo do Brasil, terá visto pequenas cruzes brancas junto à estrada. São os descansos, sepulturas.
      Os descansos são símbolos que registram uma morte. Bem ali, exatamente naquele ponto, a jornada de alguém pela vida a fora foi interrompida inesperadamente.
      Antes de completarem vinte anos, as mulheres já morreram centenas de mortes. Elas iam numa direção ou noutra e foram impedidas de prosseguir. Tinham sonhos e esperanças, que também foram cortados na raíz. Qualquer uma que não concorde é porque está dormindo. Todas essas mortes podem passar pelo processo dos descansos.
      Criar  descansos significa examinar sua vida e marcar os pontos em que ocorreram as pequenas  e/ou  as grandes mortes. Gosto de traçar uma linha cronológica da vida da mulher numa longa faixa de papel longo e assinalar com uma cruz ao longo dessa linha, da infância até o presente, os pontos em que morreram aspectos e partes do seu self e da sua vida.
      Assinalamos a ocasião em que se optou por não seguir por uma determinada estrada, caminhos que foram obstruídos, emboscadas, traições e mortes. Desenho uma pequena cruz na linha cronológica nos pontos que deveriam ter sido pranteados ou que ainda precisam sê-lo. Também escrevo “Esquecido” naqueles pontos que a mulher pressente mas que ainda não vieram à tona. Também escrevo “perdoado” acima dos fatos de que a mulher já praticamente se liberou.
       Recomendo que vc faça descansos, que se sente com uma linha cronológica da sua vida e diga “Onde estão as cruzes? Onde estão os pontos que devem ser lembrados, que devem ser abençoados?” Em todos eles há significados que você trouxe até a sua vida atual. Eles precisam ser lembrados,mas ao mesmo tempo precisam ser esquecidos. Leva tempo. Exige paciência.
        Descansos é uma técnica consciente que se compadece dos mortos órfãos da psique e lhes presta homenagem, sepultando-os afinal.
        Seja boa para si mesma e crie descansos. Eles assinalam os locais das mortes, os tempos sombrios, mas eles também são cartazes de amor ao seu sofrimento. Eles são transformadores. Há muitas vantagens em prender certas coisas à terra para que elas não saiam nos perseguindo. Há muitas vantagens em sepultá-las.

        (Resenha de um texto de Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que correm com os lobos.)




domingo, 8 de agosto de 2010

Reflexões Yunguianas

      
       
      Prefiro ser inteiro do que bom ! Ser bom sem ser inteiro, sem abraçar meu lado sombra seria um engodo!!! Não posso continuar me enganando, se é que um dia consegui. Quero e preciso mostrar a minha cara e ver quem paga para ela ficar bem. Já chega o tempo em que andei me escondendo de mim mesma . E que eu seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade? As vezes, tbém(?)
       Amor muitas vezes distorcido, mas ainda assim amor... Amor manco, mas ainda assim amor....Estes últimos tempos eu tentei ser (ficar) inteira. Mas assim optando, posso ter deixado de ser boa para alguém. Fazer o que? Não posso abrir mão de mim...Já fiz isto outras vezes, não deu certo. A gente aprende, como dizia Shakespeare, com o tempo a gente aprende. Bem pontuou Clarisse Lispector na frase: E se voce me achar estranha, me respeite. Até eu tive que aprender a conviver comigo. E sei eu a que duras penas!!! Dias sim, dias não, a gente vai sobrevivendo nem que seja pagando pra ver. Chegar ao ponto de se enxergar como protagonista e expectadora de si mesma. Meio que Gilberto Gil quando cantou: ... andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar...Melhor ser inteiro. De que vale ser bom pelas metades? Logo eu? Ah ... eu quero aprender a andar na chuva. Vai que amanhã o guardachuva quebra!!!
"Não existe nenhuma dificuldade em mim que não seja exclusivamente eu mesmo". C.G. Yung
"Todos nós nascemos originais e morremos cópias"
"Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda"

To um pote até aqui de mágoa!

Primeiras horas:
Alo!
Mãe? Tudo bem?
Tudo. O que foi?
Acabou.
De novo? Como?
Por mensagem...quero jogar o celular no lago!
Joga não! To chegando.
Me conta
Me deu um tubishi! Ai, mãe. Tá doendo.
Se é que consola, vai passar.
Quando? To um pote de mágoa
Sei não, quer dizer, logo! Confia!
Quero conversar. Quero dormir. Esquecer.Sumir.
Fala, to ouvindo.

Dia seguinte:
Melhorou?
Um cadinho.
Dormiu?
Hum hum
Qualquer coisa liga...


Dois dias depois:
E aí?
Ta doendo. To rezando.
Faça isso. Quer sair?
Não.
Fica bem. E liga. A qualquer hora...


Terceiro dia:
Maroca?
Oi mãe. Tudo bem? Como é que vc tá?
Going!
Foi na Bio?
Claro!
Ah... tá melhorzinha, né?
As coisas se acalmam, filha. Tenho fé. A gente supera.

Uma semana:
E aí?
Mãe? To. To mais tranquilinha.
É como um barco à deriva se afastando do cáis lentamente.
Com certeza. É. Eu sei.
Qualquer coisa, grita. Não desiste de vc.
Pode deixar.
Quer ir ao cinema?
Hoje não, vou sair com a Dani.
Isso. Põe a tua atenção no que te nutre.
A gente está onde se coloca, não é mesmo?
É isso, mãe. Eu te amo, tá?
Eu também. E filha, Obrigada!

Tempos depois:
Vc tá bem, né?
To. Ainda lembro, sabe, mas dói menos.
Isso. Fica com o que foi bom.
E a gente não foi ver aquele por do sol.
Quer ir agora?
Bora!!!

Assistindo ao por do sol:
Cade o pote?
Que pote?
O cheio de mágoa?
Quebrou. (risos)
Cade a mágoa?
O boi bebeu...
Antes assim!

Toca o celular: Oi, amiga! Que isso? Fica calma, to chegando.Fui...
Fui...

Jully flagrada por papparazzis...

       
        Engana-se quem pensa que apenas nasceu! Assim como Amanda estreou. Sabe como é o primeiro tudo (filho, neto, afilhado). A família faz com que seja parecido com estrea de novela da Globo. E, dependendo da família, na segunda, também!
        Júlia, tal como Amanda, virou de cambalhota e encaixou uma semana antes. Sendo assim a família teve tempo de ir acostumando- se com a idéia. É hoje, é amanhã passaram-se uns dias até que numa tarde vovó se vestia para ir ter com uma amiga quando mamãe ligou dizendo que estavam começando as cólicas. Daí para o consultório da amiga Dra Giovanna foi uma questão de duas horinhas.
       Ali pelas cinco escutamos dela que nos encontraria no hospital por volta das oito da noite. Tudo calmo. Bia foi para casa por Amandinha para dormir e depois foi tranqüila, ou menos tensa do que da primeira vez, para o Santa Luzia com Dudu.
       Às nove da noite vovó, vovô e tia Marina chegaram e ainda pegaram Bia no quarto, para só depois de meia hora subir para o centro obstétrico. Telefonemas, apreensão num sentimento de agora! Ou já já! Subimos também.
       Para quem não sabe a sala de espera tem sofá para os que conseguem sentar por mais de cinco minutos numa situação destas, televisão para os que conseguem se concentrar na novela e água. Como se bebe água ! O que mais fazer? E uma janela envidraçada com persiana fechada que só se abre na hora que o pai, lá de dentro, se lembra da turma lá de fora e nos mostra o bebe. Um pouco depois das dez chegou o Negão (vindo da Biodança). E aí? Aí nada.
      Oito olhos fixavam a janela. Nada. Uma taróloga havia previsto há pouquíssimo tempo, que eu ainda teria um neto homem. Olho para a Marina e pensamos a mesma coisa. Por que a demora? Serão dois? Contamos ao Zé; ele porém tem um palpite diferente. Acha que Dudu pode ter desmaiado lá dentro! Risos... Zuzu (a madrinha) liga e nada temos a dizer. Pobre Zuzu. Foi por pouco.
     Pura ironia, dez minutos depois a janela se abre. Sabe a entrega de Oscar quando os artistas vão chegando ao teatro e só se vê flashes de fotógrafos? Pois é. Tava achando estranho tudo tão calmo, tão civilizado. Os quatro paparazzis grudam no vidro da janela e empunhando celulares fotografam Júlia em seu primeiro momento de intimidade. Ainda pelada! Ufa! Estreou! A cara da Bia! Vamos descer! Vamos para o quarto! Liga pra Zuzu! Minha bateria acabou! Vc não tem o número dela? Tudo bem, Dudu avisa. Mas foi por pouco! Que elevador que não chega! To com fome! Vc ainda consegue comer numa hora destas? Fazer mais o que? Melhor comer do que encher a cara!Tão chegando! Aí vem elas!Uma bagunça! Alegria e emoção . “ Vamos nessa!?” Ainda vamos comer algo. Algo assim como um Mac? Pergunta Dudu. Também to com fome! Tá bom ! A gente te trás um lanche!!! Fazer o que ? Há que se comemorar! (ou, sejamos francos , matar a fome!)Amanhã a gente volta! Olho para a plaquinha na porta do quadro e comento com uma enfermeira que passava. Minha neta! A segunda!Mãaaaaaaaaaaaaaeee! O elevador!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A ciranda das mulheres sábias

       
      Cirandando dia desses por email com Ana Austin sobre vaidade, auto conhecimento e crescimento pessoal minha nova “amiga de infância” concluiu de maneira magistral, como sempre . E como o que é bonito é para se mostrar...Abram alas! Com vocês, I proudly present Sua excelência a sabedoria de vida.

...”Isso é verdade... Mas, fazer o quê? Não procurei isso, não fiz terapia. Uma vez inventei de fazer psicanálise e o cara me deu alta; disse que se eu queria gastar meu dinheiro procurasse outra atividade, porque eu não estaria precisando daquilo ali. Às vezes me assisto entendendo as coisas, dizem que é a tal clareza. Outras vezes vejo em mim as coisas que não gosto nas outras pessoas, aí, tenho que dar um jeito. Pior quando vejo nas outras pessoas coisas que admiro tanto mas não consigo fazer. Isso pesa pra burro. Ter certeza das limitações e de que elas aumentam a cada dia é duro! Ter que sair compensando uma coisa com a outra, precisa coragem. Ter na cabeça um imagem e ver outra no espelho...ái!!! e ainda assim se descobrir bonita...dá trabalho. Mas, se não for assim, como seria? Teria que sair procurando fora de mim todas as certezas, as compensações e coragem? Não gosto! Tem que vir de dentro mesmo. Da minha competência, da minha responsabilidade; coisas que eu conheça e saiba explicar. Ninguém vai me dizer o que eu sou, eu já sei disso. Mas presto atenção nas pessoas em quem confio e admiro; essas sempre me dão alguma coisa, me ajudam, me agregam valores que ainda não tenho. Por isso, não tem jeito...Tadinhas mesmo.”

Créditos a ela!!!

domingo, 1 de agosto de 2010

Dá chá para nenem, dá!

       
      A vida é dinâmica, o tempo não para, o mundo gira. Novidade, novidade, novidade. O que fizemos ontem, já caducou hoje. Que aflição! A cada geração vestimos fraldas em bebes de maneira diversa da anterior. Tudo mudando, tudo mutante. To com saudade da constancia, quero dizer, de ter por exemplo um mesmo sapato de festas há anos e contar com ele mais uma vez. Tão prático quanto um homem se vestindo para um casamento. Oh inveja! Enquanto estamos no cabelereiro nos Christiandiorizando os homens já correram no parque, lavaram o carro, tomaram um chopp e estão lendo o jornal! Fácil demais!
       Mas falemos dos pequeninos. Peito hoje, mamadeira amanhã, copinho descartável depois de amanhã. As pobres bebezinhas ( Manu da Vera e Amanda) mamaram num copinho descartável. É mole? Não podem comer doces. Mc Maravilha, só de vez em quando. Ficar descalço a que horas? Até quando estão em casa tem chinelo, pantufa, sandalhinha, tennis, sapatos, crocs e uma coleção de havaianas.
         Júlia só toma leite. E de soja , porque já se pressupõe que ela pode ter alergia ao velho amigo, irmão camarada Sua majestade o leite Ninho. Há quinze dias começou com os suquinhos. De laranja lima. Tudo bem. Dr Joao é o máximo. Em todos os sentidos. Sabe das coisas.Mas que banzé que virou criar um filho! Pode, não pode. O médico deixa, o médico não deixa. A dentista escolhe a bala que seu filho pode chupar. Mastigar não é legal. Ai que saudade do chazinho, da água de coco e do mingau!
         Envelheci e não percebi.Vera já tinha me prevenido quando eu estava para ser vovó que eu mantivesse a boca calada, considerando sua prévia experiência de ser vovó da Manu e do Heitor , dois anjos lindos! Mesmo que a gente queira passar as tradições de mãe para filha, a coisa agora é toda profissionalizada, intelectualizada e amparada por lei. Fim de papo.
       Júlia tem cólicas, mas não pode tomar chazinho, tadinha. Vovó insiste, joga indireta, manda email falando do efeito benéfico da Camomila nas crianças. Nada. Mamãe Bia não dá. Lembro de minha mãe indo à feira comprar a florzinha de Camomila para o chá dela. Tem nada não. O natal vem aí e quando eu for escrever a cartinha por ela vou pedir a “ Santa” que lhe traga um chazinho. Se ele não atender, porque à s vezes o velhinho parece ter Alzheimer ,quem sabe eu apelo para uma novena pedindo que apareça alguma matéria na Pais e Filhos ou no Fantástico reinventando o chazinho e ele vai para o trono outra vez? Milagres acontecem...Eles já não saíram da sofisticada banheirinha e voltaram a banharem-se no velho balde? E vamos que vamos...É o progresso...